
Ato 3: Em algum lugar no tempo.
Já fazia duas que estava em Madri e o seminário começaria a noite, a partir das dezenove horas, até lá ainda lhe sobrava tempo para descansar, almoçar e fazer umas compras. Apenas presentes para a filha e para a esposa. Mateus estava cansado e esgotado. Não só por causa das jornadas de trabalho, mas porque sua vida não estava equilibrada. Teve conhecimento de algo terrível, e isso estava levando ele para um abismo de reflexões. Nostalgias sem fim e remorsos. Lembranças de um passado onde sentia orgulho e prestígio, onde se sentia amado e querido. E foi passando em frente a loja preferida de sua esposa, que se deu conta de como ainda a amava, apesar de tudo. É quase impossível deixar de amar alguém que te acompanha a mais de quinze anos, não somente por causa da pessoa, mas porque tudo é adaptável nesse mundo, principalmente as pessoas. Não se ama porque precisa, mas porque se acostuma a amar. Como um hábito, mais uma tarefa da rotina. E também não é uma escolha, na maioria das vezes o sentimento te escolhe. Ele lutava para acreditar que tudo havia acabado e ele também lutava contra a idéia de que a culpa era totalmente dele. Jamais havia traído sua esposa, até resolver desistir. Ter que salvar a própria esposa de uma overdose não era para ser normal. Mas hoje em dia tudo está tão moderno. Traições secretas, drogas, putaria. Tudo que for autodestrutivo e de fácil acesso é uma arma da manipulação em massa. Quem controla a mente dos outros? Ninguém sabe, uns juram que existem conspirações, outros acreditam na divisão dos pólos (bem e o mal), outros jogam com o destino. E o Dr. Mateus tinha medo de tudo. Alguma das teorias poderia ser verdade, por isso temia todas. Mas não se sentia controlado, sabia que todos eram, mas não se sentia assim. Tinha uma rotina religiosa, não no sentido literal, era metódico e na maioria das vezes sistemático e prepotente. Sua vontade em primeiro lugar, sua vida e suas prioridades, todos deviam viver à mercê de tudo que correspondia a ele. Sua esposa costumava falar que ele representativo, o que ele representava? Apenas uma figura, um personagem que algum dia – que ela aguardava com ansiedade – tornaria-se um ser de verdade, alguém com pulsações e sangue nas veias. O mais estranho é que Mateus já teve um coração algum dia. Dizem que essa profissão faz isso com as pessoas, mas ela achava que era apenas uma desculpa para quem já era frio e calculista.
Suprimia seus desejos com o trabalho e rejeitava todo o qualquer afeto de sua família. Havia se fechado em um mundo solitário, somente porque achava tudo muito desnecessário. Mas ao voltar de Madri e ao pisar novamente dentro de sua casa, não foi recebido com abraços calorosos, porém compreendeu. Em um curto espaço de tempo sentiu mais saudade delas do que sentiria em um ano sem vê-las. E descobriu que não sentia porque não tinha tempo para sentir, nada como uma reflexão. Sendo assim, ele propôs a filha que a levaria para um jantar, coisa que somente se lembrava de ter feito há dez anos. Ela não hesitou e logo se arrumou, chamou sua mãe, que disse estar indisposta e com dores terríveis no alto da cabeça. Então perguntou ao pai se não podia levar uma amiga junto. O plano dele não era esse, porém queria parecer o mais compreensível possível e aceitou com delicadeza o pedido da filha.
Chegando ao restaurante, todos resolveram pedir hambúrgueres, fritas, porções, refrigerantes e bobagens que estragam o estômago, os dentes, a pele, e quase tudo. Mas como não era do hábito de ninguém comer tudo aquilo de uma só vez, resolveram abrir uma exceção por aquela noite. Mesmo sem nada para comemorar. Por enquanto.
Como Mateus atravessava um momento reflexivo em sua vida, em maior parte do tempo se manteve introspectivo, e ele até tentava sair de dentro de sua própria mente e conversar, mas logo se recolhia. Aos poucos começou a prestar atenção na filha e na amiga, principalmente na amiga, que até então ele não havia reparado que era tão, anatomicamente perfeita. E aos 17 quem não é? Uma certa obsessão pelo novo começou a nascer dentro dele. Entre todo e qualquer assunto que elas conversavam era possível escutar e bem audível, risadas, e gargalhadas, felicidade espontânea, alegria radical. Parecia que elas estavam sempre de bom humor e se divertindo. Aproveitando a vida, os sentimentos bons, os bons momentos, aqueles minutos tão preciosos enquanto desfruta da companhia de amigos. E ao mesmo tempo surgia também dentro dele, inveja, cobiça, vontade e o desejo.
Continuação...
*imagem: René Magritte – The Son of Man, 1964