domingo, 13 de maio de 2012

Sim



Eu não sei por que ainda insisto em ser assim, tão dramática e complexa. Extremamente romântica, ansiando ser correspondida. Eu não posso evitar, na verdade eu não pude evitar, pois por mais perdida que eu seja ainda consigo me apaixonar. E sempre buscando algo complexo, que tende ao desequilibro. Eu tenho medo de falar sobre mim, e sobre tudo que tem passado na minha cabeça, mas se eu não falar ninguém saberá. Eu preciso dar voz aos meus sentimentos. Preciso permitir. Não posso mais negar o que eu sinto, porque sei que de alguma forma eu quis assim. Era o meu desejo. Sabia que este um dia me confrontaria, mas eu não quis me preparar.
E por que eu tenho sofrido tanto assim? Por que eu tenho que provar coisas a todo o momento? Acho apenas, que estou cansada, e que eu poderia ter dito (como sempre) as coisas certas na hora certa, para assim, deixar de reviver um passado que não aconteceu. Eu trouxe muita complexidade para a minha vida e agora já não posso mais me livrar dela. Não posso seguir em frente e também não posso desistir. Queria me desculpar, mas não sei como e nem sobre o quê. Como é triste o amor, agora tenho as palavras certas, mas não o momento.
“I don’t want to lie. I can’t tell the truth.”

sábado, 21 de janeiro de 2012

O romance das vacas espirituosas (5ª pt)


Sequência Ato 3: Perto do fim, longe de um recomeço.

Ele raramente se mostrava incrédulo ou pouco confiante. Era um homem objetivo, de opinião forte, intelecto desenvolvido e um senso de percepção sempre em alerta. Mas o destino adora contrariar os sentimentos, ele adora tornar as pessoas confusas e paradoxais. Cria situações que levam toda e qualquer ideologia e racionalismo para longe.

Ele não superou, ele não resolveu, ele não consertou, ele apenas se rendeu. Fingiu-se de cego para justificar todo o seu apelo egoísta. Porque iniciar um relacionamento significa renunciar a individualidade e desdobrar-se. E ter uma família exigia ainda mais atenção. Era preciso se vigiar para não ser prepotente e egocêntrico. E não importa se parece justo ou não, não importa se é certou ou errado, bom ou mal, algumas coisas são simplesmente radicais. Se você quer ganhar, precisa primeiramente aprender a perder a sua vontade. Perder-se de você e ganhar alguém para se reencontrar.
Mas ele decidiu que iria voltar a se amar. Não iria satisfazer os seus sentimentos nem os sentimentos de outra pessoa, ele queria apenas manter esse amor. Um amor carnal e humanizado. Egoísta. Enquanto a sua carne não estivesse satisfeita, seu espírito estaria incompleto e sua alma pouco saberia por onde andar. Era necessário, era preciso magoar.

*imagem: René Magritte. Philosopher's Lamp

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Can't find a better man


Se te amo, não sei!

Amar! se te amo, não sei.
Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.

(Gonçalves Dias)



ALICE: It's the only way to leave. "I don't love you anymore. Goodbye."
DAN: Supposing you do still love them?
ALICE: You don't leave.
DAN: You've never left someone you still love?
ALICE: Nope.
(Closer)

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

No time


“[...] era uma violentação das minhas aspas, das aspas que faziam de mim uma
citação de mim”.

“O leve prazer geral - que parece ter sido o tom em que vivo ou vivia - talvez viesse de que o mundo não era eu nem meu: eu podia usufruí-lo. Assim como também aos homens eu não os havia feito meus, e podia então admira-los e sinceramente amá-los, como se ama sem egoísmos, como se ama a uma idéia. Não sendo meus, eu nunca os torturava. Como se ama a uma idéia. A espirituosa elegância de minha casa vem de que tudo aqui está entre aspas. Por honestidade com uma verdadeira autoria, eu cito o mundo, eu o citava, já que ele não era nem eu nem meu. A beleza, como a todo o mundo, uma certa beleza era o meu objetivo? eu vivia em beleza?”

“Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do que eu não era, e essa imagem do não-ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente. Como eu não sabia o que era, então “não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo menos eu tinha o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”, tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia com algum pré-fervor o que era o meu mal. E vivendo o meu “mal”, eu vivia o lado avesso daquilo que nem sequer eu
conseguiria querer ou tentar. Assim como quem segue à risca e com amor uma vida de “devassidão”, e pelo menos tem o oposto do que não conhece nem pode nem quer: uma vida de freira. Só agora sei que eu já tinha tudo, embora do modo contrário: eu me dedicava a cada detalhe do não. Detalhadamente não sendo, eu me provava que - que eu era”.

Clarice Lispector – A paixão segundo G.H.

"But everybody's changing and I don't feel the same"

domingo, 23 de outubro de 2011

Parasita


Estou tão cansada que não posso sentar. Já fui até a cozinha mais de oito vezes. A torneira da pia está quebrada e o som das gotas no alumínio gelado ecoa por todo o apartamento. O lodo já se espalhou por tudo, o cheiro de mofo se expande pelo ambiente, corrói os móveis e os objetos, imortalizando cada movimento anti-horário. Eu só queria comer alguns ovos mexidos com bacon, queijo e tomate, mas quando abri a porta da geladeira os alimentos já haviam criado vida.

O apartamento de cima está com um vazamento, deixando assim o teto da sala todo podre e os papéis de parede escuros e cobertos de mofo. Há sete dias esqueci a janela do meu quarto aberta e com toda sorte do mundo naquele dia choveu toda chuva da estação, eu apenas suspirei, juntei alguns trapos e migrei para sofá. Não me importo se meu colchão está mofado e fedorento como tudo aqui. Também não dou a mínima para os ratos, as baratas, os vermes e os escorpiões. Pouco me importa a privada entupida, as goteiras e a água gelada. Só desejo que o gás vaze um pouco, um pequeno vazamento de gás. Talvez alguma vela caia como vento sobre a cortina imunda.

Tenho sobrevivido à base de cafeína e ovos. Está tão úmido aqui que fica impossível sentir sede, sentir vontade de água, tudo encharcado e transbordando.

Então...

Comecei arrancando os papéis de parede e arremessando a cadeira contra a janela de vidro. Depois virei a mesa com toda aquela merda por cima dela. Quando ergui a TV vi meu reflexo, o que me fez arremessá-la em direção a cozinha sobrando apenas alguns cacos de sei lá o que, eu só queria que sumisse. Com toda a minha brutalidade primitiva segurei aquele pedaço de ferro com as duas mãos e acabei...

Não sei chorar só sei gritar. Talvez agora o gás possa vazar e a vela cair. E eu só precisava de um pano para enxugar tudo.

"But you
You're not allowed
You're uninvited
An unfortunate slight"

domingo, 24 de julho de 2011

O romance das vacas espirituosas (4ª pt)


Ato 4: Desprezíveis ou pura bondade.

A podridão é inversamente proporcional ao crescimento espiritual. A humanização é mais tolerada do que a desumanização. Desperdiçar a juventude em uma autodestruição predatória e contagiosa é primeiro passo para entrar para o grupo dos submissos, possuidores de um otimismo irracional.
Extremamente vazia, porém recheada de apelação. O tipo de alma comercial, comprada facilmente no mercado varejista. Inquieta, com sorte uma vaca passional. Com seus 17 anos prontos para serem dilacerados, com seu sorriso pronto e simples. Vulgar e dissimulada, quase que uma vilã de novela mexicana. Um demônio feminino. Sem regras, sem obrigações, nem senso ou conceito algum, nada na cabeça nem nas mãos. A jovialidade conquistadora, os sonhos frescos e possíveis, as idéias e os ideais pouco fundamentados. Idealismo puro.
Prostrada na sacada do quarto, cabelos ao vento, pele desnuda, ossos a mostra, sem nada a perder. Um pouco de admiração, um pouco de compreensão. Cabelos atrás da orelha e lábios quentes se tocando, em diferentes tempos, em diferentes gerações, por motivos opostos. Tudo que é novo pode ser admirado facilmente, mas redescobrir e acreditar novamente nunca possibilita abraços e beijos carinhosos pelo caminho. Amante ou amada? A outra ou aquela?
O motivo que a levou foi descobrir, já para ele foi apenas redescobrir. Não tinha haver com culpa ou entrega de sentimentos ou complicações. Era tudo parte da falta de autocontrole de ambos. Simpatia demais, desgosto demais, estupidez demais. A amiga da filha, a menina risonha, com sardas no rosto e cabelo comprido, corpo novo e pele cintilante.
Estúpida, por ater-se a tudo que não existe. Não existe felicidade. Não existem contos de fadas. Um escape, uma fuga, porém o motivo maior nunca era o esperado.
E por não ser cristã nem se importou em pecar assim tão sem motivos. E chega a ser quase impossível identificar a maldade na alma ou nos sentimentos. O desejo era apenas a tal da felicidade, o novo, a descoberta de alguma coisa, nunca teve como objetivo destruir a estrutura familiar de ninguém. Queria apenas ser ela mesma e já que não era ninguém, não consegui ir além de nada.

*imagem: René Magritte. Dangerous Liaisons - 1926

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O romance das vacas espirituosas (3ª pt)


Ato 3: Em algum lugar no tempo.

Já fazia duas que estava em Madri e o seminário começaria a noite, a partir das dezenove horas, até lá ainda lhe sobrava tempo para descansar, almoçar e fazer umas compras. Apenas presentes para a filha e para a esposa. Mateus estava cansado e esgotado. Não só por causa das jornadas de trabalho, mas porque sua vida não estava equilibrada. Teve conhecimento de algo terrível, e isso estava levando ele para um abismo de reflexões. Nostalgias sem fim e remorsos. Lembranças de um passado onde sentia orgulho e prestígio, onde se sentia amado e querido. E foi passando em frente a loja preferida de sua esposa, que se deu conta de como ainda a amava, apesar de tudo. É quase impossível deixar de amar alguém que te acompanha a mais de quinze anos, não somente por causa da pessoa, mas porque tudo é adaptável nesse mundo, principalmente as pessoas. Não se ama porque precisa, mas porque se acostuma a amar. Como um hábito, mais uma tarefa da rotina. E também não é uma escolha, na maioria das vezes o sentimento te escolhe. Ele lutava para acreditar que tudo havia acabado e ele também lutava contra a idéia de que a culpa era totalmente dele. Jamais havia traído sua esposa, até resolver desistir. Ter que salvar a própria esposa de uma overdose não era para ser normal. Mas hoje em dia tudo está tão moderno. Traições secretas, drogas, putaria. Tudo que for autodestrutivo e de fácil acesso é uma arma da manipulação em massa. Quem controla a mente dos outros? Ninguém sabe, uns juram que existem conspirações, outros acreditam na divisão dos pólos (bem e o mal), outros jogam com o destino. E o Dr. Mateus tinha medo de tudo. Alguma das teorias poderia ser verdade, por isso temia todas. Mas não se sentia controlado, sabia que todos eram, mas não se sentia assim. Tinha uma rotina religiosa, não no sentido literal, era metódico e na maioria das vezes sistemático e prepotente. Sua vontade em primeiro lugar, sua vida e suas prioridades, todos deviam viver à mercê de tudo que correspondia a ele. Sua esposa costumava falar que ele representativo, o que ele representava? Apenas uma figura, um personagem que algum dia – que ela aguardava com ansiedade – tornaria-se um ser de verdade, alguém com pulsações e sangue nas veias. O mais estranho é que Mateus já teve um coração algum dia. Dizem que essa profissão faz isso com as pessoas, mas ela achava que era apenas uma desculpa para quem já era frio e calculista.

Suprimia seus desejos com o trabalho e rejeitava todo o qualquer afeto de sua família. Havia se fechado em um mundo solitário, somente porque achava tudo muito desnecessário. Mas ao voltar de Madri e ao pisar novamente dentro de sua casa, não foi recebido com abraços calorosos, porém compreendeu. Em um curto espaço de tempo sentiu mais saudade delas do que sentiria em um ano sem vê-las. E descobriu que não sentia porque não tinha tempo para sentir, nada como uma reflexão. Sendo assim, ele propôs a filha que a levaria para um jantar, coisa que somente se lembrava de ter feito há dez anos. Ela não hesitou e logo se arrumou, chamou sua mãe, que disse estar indisposta e com dores terríveis no alto da cabeça. Então perguntou ao pai se não podia levar uma amiga junto. O plano dele não era esse, porém queria parecer o mais compreensível possível e aceitou com delicadeza o pedido da filha.

Chegando ao restaurante, todos resolveram pedir hambúrgueres, fritas, porções, refrigerantes e bobagens que estragam o estômago, os dentes, a pele, e quase tudo. Mas como não era do hábito de ninguém comer tudo aquilo de uma só vez, resolveram abrir uma exceção por aquela noite. Mesmo sem nada para comemorar. Por enquanto.

Como Mateus atravessava um momento reflexivo em sua vida, em maior parte do tempo se manteve introspectivo, e ele até tentava sair de dentro de sua própria mente e conversar, mas logo se recolhia. Aos poucos começou a prestar atenção na filha e na amiga, principalmente na amiga, que até então ele não havia reparado que era tão, anatomicamente perfeita. E aos 17 quem não é? Uma certa obsessão pelo novo começou a nascer dentro dele. Entre todo e qualquer assunto que elas conversavam era possível escutar e bem audível, risadas, e gargalhadas, felicidade espontânea, alegria radical. Parecia que elas estavam sempre de bom humor e se divertindo. Aproveitando a vida, os sentimentos bons, os bons momentos, aqueles minutos tão preciosos enquanto desfruta da companhia de amigos. E ao mesmo tempo surgia também dentro dele, inveja, cobiça, vontade e o desejo.

Continuação...

*imagem: René Magritte – The Son of Man, 1964